Chorando e cantando
“Quando fevereiro chegar
Saudade já não mata a gente
A chama continua
No ar, o fogo vai deixar semente”
A virada de janeiro para fevereiro veio poderosa: lua cheia em leão, dia de Iemanjá, e carnaval pegando fogo, pelo menos para quem é pernambucano (é verdade que Deus tem seus preferidos, mas esse é outro papo).
Na onda da maré viva, deu vontade de voltar a falar de amor e música, aliás, amor e samba. Mais precisamente, roedeira e samba. Um assunto inesgotável, graças às deusas. Um amor faz sofrer, dois amor/desamor faz chorar.
Não sou a maior entendida do assunto samba, nem pretendo ser. O pouco que sei vem muito da influência de minha irmã Raquel e meu cumpadi José Demóstenes. Nos assuntos do coração, tenho minha estrada. Santo, secreto, sagrado amor, paga pra ver. Segundo uma amiga querida, sou uma apaixonada incorrigível. Ando cansada do amor romântico HT, mas do amor em si jamais.
Voltando ao que interessa. Uma das coisas que mais me assombra na literatura e na música é o poder de síntese. Dizer tudo com muito pouco. Que qualidade linda.
Por exemplo, Péricles acaba comigo em Melhor eu ir. Eu pensando em amor, você pensando em madrugada. Amigo, nem precisa dizer nada depois disso. Adeus.
Que talvez a gente se encontrou na hora errada
Eu pensando em amor, você pensando madrugada
E agora a gente não consegue dizer nada
Vim dizer adeus
O que dizer de Mel na boca de Almir Guineto? Vou jogar flores no mar…
É mentira
Cadê todas promessas de me dar felicidade
Bota mel em minha boca
Me ama, depois deixa a saudade, será...
Será que o amor é isso?
Se é feitiço vou jogar flores no mar
Zeca Pagodinho, um gigante, define o amor - pelo menos o que eu acredito e desejo - em Quando a Gira Girou. Porque é isso, minhas caras, ficar no bom é muito fácil. Na crise, na vulnerabilidade, na depressão, no ruim, no fundo do poço, quem olha o seu pior e enxerga o seu valor, acredita, mergulha junto, espera o vendaval passar, é quem te ama.
Quando a gira girou
Ninguém suportou
Só você ficou
Não me abandonou
Quando o vento parou
E a água baixou
Eu tive a certeza do seu amor
Não esqueçamos que esse amor nem sempre é o romântico. Como diria a sábia Ana C., em
Cartilha da cura “as mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios”. Cuide dos seus de fé.
Nesse pequenino compilado não poderia faltar o vovô, Jorge Aragão da Cruz, vamos de Eu e Você sempre.
Logo, logo, assim que puder, vou telefonar
Por enquanto tá doendo
E quando a saudade quiser me deixar cantar
Vão saber que andei sofrendo
Outro hino é Falsa Consideração. Aprendam no que acreditar, meninas. risos.
Agora eu sei
Que o amor que você prometeu
Não foi igual ao que você me deu
Era mentira o que você jurou
Mas não faz mal
Eu aprendi que não se deve crer
Em tudo aquilo que alguém nos diz
Num momento de prazer ou de amor
Já é, olha esse título, gênio demais.
Pra onde você for
Lá pra mim já é
Irei, se você quiser
A saudade é dor
Volta, meu amor
Assim que você puder
Lucidez para fechar de badoque. Basta a primeira estrofe.
Por favor, não me olhe assim
Se não for por viver só pra mim
Arlindo Cruz, o sambista perfeito, não poderia ficar de fora. Ainda é tempo para viver feliz.
Me cansei de ficar mudo, sem tentar
Sem falar
Mas não posso deixar tudo como está
Como está você?
Fim da tristeza, faz favor. Perdi meu amor, chorei, meu pranto molhou o mar.
O desejo falou por nós
Disse assim: É o fim da tristeza
Bom demais, o amor que a gente faz
Não tem fim, nem adeus nunca mais
É a felicidade em mim
Raquel, recentemente, me aplicou Nos braços da batucada. O disco já arranhou nessa faixa. Encerro com ela, completa.
O samba é meu protetor, sim.
Noites a fio sem te ver
Meu desafio foi viver
Saudade
Agora chega de sofrer
Eu nada fiz pra merecer
Maldade
Foi quando um amigo lembrou
Que o samba não pode parar, não
Não é como um caso de amor que acaba
Se eu perco no jogo do amor
O samba é meu protetor, sim
Me tirar do trauma, da dor, da mágoa
Cansei de esperar por você
Achei o prazer de sonhar
Não tenho mais tempo a perder
Não tenho mais medo de nada
Que bom ver o dia nascer
Que bom ver o sol despertar
Nos braços da batucada
Se me encontrar na rua, no samba ou no frevo, chorando e cantando, me abrace, estou exatamente no meu lugar.
A chama continua. No ar, o fogo vai deixar semente.


<3
Amiga plmdds 🥹🥹🥹🥹💘💘💘💘