“o profundo necessita do profundo”
Eu vou fazer uma canção de amor para gravar num disco voador
Entramos na temporada de peixes reverberando as emoções do carnaval, com direito até a eclipse, y o Coelhão ainda passou pelo Brasil. Como um grande pisciano e último romântico, ele nos deixa na cauda do cometa falando de amor, ancestralidade, memórias.
“Mientras uno está vivo debe amar lo más que pueda”
Sou peixe também, de ascendente. Além do quê, caranguejo peixe é.
É meu signo favorito. Sentimento, intuição, rituais, imaginação, lombras, amor, sonhos (dissociação e ilusão também kkkk). Altos mergulhos.
Adoro um cardume e por vezes me perco nele, é verdade. Mas recupero meus contornos sem prejudicar o exercício da empatia e conexão com o intangível.
Quer saber? Acho esse pacote todo lindo, valoroso.
A sensibilidade nos torna únicos.
Enxergar o outro e amar grande nos faz pessoas melhores.
Vou aproveitar o movimento tectônico, a emoção à flor da pele, e compartilhar pedrinhas miudinhas que avistei por aí, esses dias, que têm tudo a ver com a vibração da temporada.
O livro do mês do Traça, inclusive, pode ser lido como bem peixinho.
A frase que dá título a newsletter foi retirada dele,
Xamãs Elétricos na festa do Sol, Mónica Ojeda
“(...) sonhar era sobreviver à morte do adormecido.
O sonhador, ele nos disse, pula como um peixe fora da noite”
“Noa e eu conhecemos um casal que fazia tecnocúmbia espacial com sons que a Nasa extraía do universo. Em suas músicas, ouvia-se o vento de Marte, tormentas solares, aurora em Júpiter, pulsações de estrelas e nebulosas. Ele se chamava Pedro; e ela, Carla. Contavam que o som de um meteorito era o incêndio de sua própria luz na atmosfera terrestre.
Os sons falam, dizia Carla. Por exemplo, Júpiter soa como pássaros”.
Cleide Batista, poeta do Cariri, compartilhada por Adelaide Ivánova
“A vida molha
o tempo enxuga
e o vento leva”
Nizar Qabbani, Síria, 1923-1998, em O Universo está pintado à mão, compartilhado pelo excelente @opoemaensinaacair
“Eu não sou professor
Para te ensinar a amar,
Também os peixes não precisam de um professor
Que os ensine a nadar
E os pássaros de um professor
Que os ensine a voar.
Nada pelos teus próprios meios.
Voa pelos teus próprios meios.
O amor não tem manuais
E os maiores amantes da história
Não sabiam ler”.
Cristina Peri Rossi, A paixão, em Nossa Vingança é o amor
“Saímos do amor
como de um desastre aéreo
Havíamos perdido a roupa
os papéis
a mim me faltava um dente
e a ti a noção do tempo
Era um longo ano como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
despojos rotos:
copos fotos livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um desmoronamento
de um vulcão
das águas arrebatadas
e nos despedimos com a vaga sensação
de haver sobrevivido
ainda que não soubéssemos para quê”.
Miguel Esteves Cardoso, em Último Volume, também compartilhado pelo @opoemaensinaacair
“As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e accções de despejo a que se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.
O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada.
(...)
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguirmos fugir, mas temos mais tarde de enfrentar.
(...)
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar”
Do podcast sobre luto do Anderson Cooper, All There Is, episódio com Patti Smith, grifo de um texto de Andrew Garfield, de quando o ator perdeu a mãe. Compartilhado por Gisela Gueiros na sua ótima newsletter Hottest Takes
“Fui passear na praia. O sol estava se pondo e estava um gelo. Senti que precisava entrar na água, então simplesmente pulei no mar. E é engraçado: assim que meu corpo e minha cabeça submergiram, foi como se eu tivesse recebido o remédio; meu peito relaxou e eu relaxei. Minha interpretação daquele momento foi que era a sabedoria da natureza, a sabedoria da terra, a sabedoria do oceano me avisando: ‘Ei, sim, é difícil, é horrível. Não estou tirando essa dor única que você está sentindo, mas só para você saber, nós aqui fora, nós, moléculas de água — vemos isso há milênios. E, na verdade, este é o melhor cenário: você perdê-la, em vez de ela perder você. Esta é uma situação muito melhor.’
E, novamente, meu ego estava se segurando; meu ego achava que sabia mais. Meu ego dizia: ‘Não, isso não faz sentido. Não, não, não deveria ser desta forma; deveria ser daquela forma.’ Mas, na verdade, foi preciso o oceano, o oponente maior, para apenas me segurar lá embaixo e dizer: ‘É realmente horrível. E filhos vêm perdendo suas mães por milhares e milhares de anos, e continuarão perdendo, e você acaba de ser iniciado. Alguma ilusão foi removida. Você está numa versão mais real do mundo agora, e é doloroso.”
Quando li esse trecho só senti que era a sabedoria de Iemanjá em ação. Como dizem, tê-la no barco nem sempre impede o naufrágio, mas garante a chegada da calmaria. No mar, a grande mãe sempre dá colo, a sensação de completude e integração ao mistério que nos salva do desespero, anestesia a dor.
Finalizo com Dorival Caymmi, um dos mais belos homens que já pisou nessa terra, meu remédio favorito contra a ansiedade e a pressa, o obá de Xangô que nunca deixou de amar e saudar Iemanjá.
“A onda do mar leva
A onda do mar traz
Quem vem pra beira da praia, meu bem
Não volta nunca mais”
“É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar”


